Monday, 24 April 2017

Bem vindo ao Jardim de Infância mais legal do mundo - Matéria do NY Times

Saiu uma matéria muito legal no NY Times, sobre o Jardim de Infância que a Fundação Pestalozzi mantém dentro do Millerntor. Eu traduzi a matéria e transcrevi abaixo para que vocês conheçam mais do que rola no mundo do FC St. Pauli.

O texto original está nesse link aqui, e a matéria foi escrita por Andrew Keh. As imagens também foram tiradas da matéria original.


HAMBURG, Germany - Era tarde de terça-feira no jardim de infância da Fundação Pestalozzi, e algumas crianças e seus pais estavam por alí, um pouco além do tempo normal de permanência na instituição.

Na verdade não há pressa para ir pra casa, de verdade. Eles estão aproveitando a vista da varanda, na parte de trás do jardim de infância: no interior do estádio do Millerntor, a casa do FC St. Pauli, enquanto o local é rapidamente preenchido para um jogo de meio de semana.

Ficar depois da aula nunca foi tão divertido.

Desde 2010, a Fundação Pestalozzi opera dentro do estádio - literalmente dentro, não próximo ou do outro lado da rua - oferencendo algumas regalias que são consideradas únicas no mundo da educação infantil.

Reprodução: GORDON WELTERS FOR THE NEW YORK TIMES

O jardim de infância usa o campo do estádio, os túneis e coberturas para atividades em grupo. Os jogadores do time vêm para ler para as crianças. Professores usam a arena principal como um tipo de área de recreio gigante. E em dias de jogos, os pais imploram por um cantinho para assistir aos jogos desse ponto privilegiado do jardim da infância, a uma distância mínima das arquibancadas da área sul.

"Nós nos inscrevemos em 3 jardins de infância," diz Katja Frank, professora de artes que tem 2 filhos no Pestalozzi. "2 porquê eram perto de casa, e aqui por conta de razões muito legais."

REPRODUÇÃO: GORDON WELTERS FOR THE NEW YORK TIMES

Na terça-feira a tarde, os jogadores estavam em campo se preparando para um jogo crucial na liga contra o Sandhousen. Dentro, em um corredor que exibia os recortes de papel pintados com os dedos as iniciais do clube, F.C.S.P., uma pequena criança, andava de forma determinada, vestindo um macacão preto com o logotipo da caveira do time. Perto, uma professora descansava um bebê em seu ombro, ninando para que ele dormisse.

O jardim da infância foi idealizado há oito anos atrás, quando o FC St. Pauli estava reformando o estádio. Havia um espaço para construir no canto sudeste, entre 2 grandes arquibancadas que foram refeitas. A decisão de usar esse espaço como um centro para cuidar de crianças só faz sentindo, talvez, no único e famoso mundo não convencional de consciência social do clube e sua vizinhança.

"A responsabilidade social para as pessoas que vivem em St. Pauli é um tópico especial para o clube, faz parte do nosso DNA," diz Christoph Pieper, porta voz do clube, que tem 2 crianças que fazem parte do programa do jardim de infância. (Três outros empregados do time, têm crianças matriculadas também.)

Após um breve período na Bundesliga, FC St. Pauli tem permanecido na segunda divisão nos últimos anos. Ainda que seus feitos em campo sejam bem modestos, fora de Hamburgo eles têm se tornado famosos e muito populares. Seus fãs são conhecidos por sua política de esquerda e campanhas contra o racismo e a homofobia. No topo das arquibancadas - visíveis da janela do jardim de infância - grandes sinais podem ser lidos, em alemão, "No football for fascists" (Sem futebol para os fascistas) e "No person is illegal." (Nenhuma pessoa é ilegal.)

REPRODUÇÃO: GORDON WELTERS FOR THE NEW YORK TIMES

St. Pauli, a vizinhança, é uma área da classe trabalhadora - conhecida por seus clubs e a Reeperbahn - que vêm crescendo nos últimos anos. O time do logo da caveira e das cores marrom e branco são proeminentes na região, onde as pessoas comparam a um estilo de vida.

A idéia de um local onde possam deixar os filhos no estádio do time do coração, seduz muitos pais da região.

"Quando nós fazemos os passeios, nós temos pais que são fãs do time e eles ficam "Meus Deus, meu filho precisa vir pra cá!" diz Nina Greve, uma das diretoras do programa. "E eu fico, OK, mas deixe-me falar primeiro sobre o que fazemos e nossas idéias, não apenas o futebol. Essa deveria ser a parte importante, certo? Mas as vezes, é tudo sobre futebol."

Greve e sua chefe, Juliane Schermuly-Petersen, brincam que elas e 2 outras pessoas que também trabalham no centro infantil são as únicas pessoas indiferentes ao futebol e ao clube. Algumas horas antes do jogo, as duas estão trabalhando em suas mesas no escritório. Elas pareciam nem notar o fã batendo um enorme tambor do lado de fora de sua janela.

Enquanto as crianças - elas são mais de 130, com uma equipe de 20 - estavam fazendo suas atividades internas, vendedores do lado de fora estavam grelhando salsichas e vendendo cerveja gelada. O sol estava brilhando, os fãs começando a entrar no estádio para astear suas bandeiras e garantir seus lugares nas arquibancadas.

"Normalmente, eles estão muito bêbados," diz Schermuly-Petersen sem tirar os olhos da tela do computador.

Depois das crianças almoçarem (picadinho e arroz, a maioria parece que terminou no chão) e irem tirar uma soneca longe da comoção do lado e fora do prédio, muitos professores saem para o meio das arquibancadas para fumarem um cigarro.

"Eu amo o clube, eu amo futebol, e eu posso trabalhar aqui todos os dias, então é ótimo," diz Anne Schick, uma professora que é também goleira de um dos times femininos do FC St. Pauli.

Schick, cuja esposa também trabalha no Pestalozzi, é fã do St. Pauli há 18 anos. Ela disse, com algum disconforto, que tudo bem se alguma criança ou algum de seus pais torcesse pelo Hamburger S.V - o outro, grande clube da cidade - mas ela fingiu engasgar quando disse seu nome. De qualquer forma, ela brincou, ela e suas colegas estavam fazendo sutilmente o seu trabalho de doutrinação com as crianças.

Em sala de aula, cantos de torcida são misturados com músicas de berçário. Os professores, por exemplo, reformulam os cânticos mais populares do clube para as crianças cantarem junto:

Quando toda a Kita (abreviação de Kindegarden) canta para o St. Pauli,
Isso ecoa no Millerntor.
As melhores crianças da cidade cantam só para você.
Então vamos lá, FC, marque outro gol.

When the whole Kita sings for St. Pauli,
It sounds through the Millerntor.
The city’s best kids only sing for you.
So come on, F.C., score another goal.

Em torno de uma hora antes do jogo, as arquibancadas fora do jardim de infância começam a ficar cheias de pais com suas 'bomber jackets', bonés, óculos estilosos e sapatos interessantes. Cafés e alguns petiscos aparecem. Do lado de fora, perto da porta de entrada do jardim de infância, um homem com moicano verde vomita ao lado do prédio.

Pestalozzi disponibiliza um modesto número de espaço no terraço para os pais a cada jogo, postando inscrições poucos dias antes do jogo. Durante os jogos, as salas de aula ficam cheias de professores e estagiários, então as crianças podem assistir aos jogos com seus pais ou brincar do lado de dentro.
Niels Grützner, um dos pais, segura seu filho Bo de 3 anos, que veste fones verdes para minimizar o barulho da multidão. Grützner está particularmente ansioso por esse jogo: Seu filho Piet, de 8 anos, vai entrar no campo com os jogadores durante a cerimônia de pré-jogo.

"Nós não precisamos de babás nos dias de jogos, o que é realmente importante para os pais que são fãs do time," diz Grützner, ao jornalista.

Minutos depois, Grützner, com luvas sem dedos e gorro, se levantou da cadeira, segurando um cachecol do time acima de sua cabeça enquanto o jogo dava o ponta pé inicial.

Frank, a professora de arte, tem comparecido a vários jogos ao longo dos últimos anos. Ela disse que os jogos são uma ótima maneira de criar amizade entre os pais e professores.

"Isso é animador, um bom lugar para estar," diz Frank. "As pessoas são politicamente corretas."
E suas filhos, Jonna, 5, e Henri, 2, se encaixam bem com a multidão do futebol.

"Eles são muito bons gritando," diz ela com um sorriso.


*Esse texto é uma tradução do texto original publicado pelo Jornal NY Times, versão on-line em 24/04/2017*

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